domingo, 22 de fevereiro de 2015

Rótulos são para produtos, logo, música tem rótulo



Nos últimos dias fulguraram nas redes sociais discussões sobre a utilização de rótulos, como divisões e classificações de gêneros musicais, identificados com o Rio Grande do Sul. Tal discussão foi proveniente do texto escrito pela cantora, apresentadora e jornalista Shana Muller (Tem me cansado o uso do tal gentílico gaudério), e posteriormente debatido também em texto pelo músico, mestre em Letras, e atual presidente do Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore, Vinícius Brum (A canção regional e as bandeiras), ambos publicados no jornal Zero Hora de Porto Alegre.

A reflexão estendeu-se a alguns músicos, advinda do sentimento de necessidade em prosseguir o debate, criando grupos de discussão no qual sugeriu-se a tomada de atitudes para modificar os fatos discordantes que os textos abordam e criticam.

 Com o objetivo de aprofundar a discussão e contribuir com o debate, neste texto vamos refletir sobre as construções dessas classificações que não são restritivas à música do Rio Grande do Sul, e sim a todo e qualquer tipo de música que faça parte do mercado do sistema capitalista atual.




“Rótulos” fazem parte do sistema do mercado musical

As atividades relacionadas ao consumo de música (pensar sobre música, falar sobre música, fazer música, ouvir música, dançar, etc.), segundo o musicólogo Franco Fabbri “implicam referência a uma taxionomia mais ou menos detalhada” (Fabbri, 1999:1). Essa taxionomia está representada na divisão do universo musical em gêneros, que orientam o consumo e as expectativas dos consumidores, estabelecendo distinções entre as diferentes experiências musicais. Ir, por exemplo, a um “show de rock”, a uma “roda de samba”, a um “baile gaúcho” ou a um “festival nativista” são atividades sociais que envolvem uma certa gama de valores agregados às músicas conhecidas como “samba”,“rock” e “nativista” ou “gauchesca”. De acordo com Martín-Barbero, o gênero não é somente uma “qualidade da narrativa”, mas um mecanismo de onde se obtém o reconhecimento e, a partir dele, uma chave de “decifração do sentido” (2001:211).

Para John B. Thompson, as formas simbólicas têm como características o fato de serem convencionais, isto é, que seu uso e interpretação envolvem aplicações de “regras, códigos e convenções de vários tipos” (Thompson, 1995:185). Esses códigos e regras são reconhecidos e interpretados para serem associados a um universo simbólico e categorizado e, então utilizados e consumidos. “Samba”, “rock”, “música gaudéria”, etc. são demarcadores de hábitos de consumo, cujos códigos e convenções são reconhecidos pela coletividade funcionando como uma espécie de “porta de entrada” para a construção de sentidos e identidades musicais.

A consolidação da música popular como forma principal de comercialização de discos colaborou para a sedimentação da música enquanto um bem de consumo, ou seja, um produto. Trata-se de uma forma artística produzida e divulgada por determinados agentes e consumida sob certas condições através de um sistema de trocas compensatórias em favor desses produtores. Um produto, portanto, criado para ser consumido.

Assim, todas as práticas musicais são atos de consumo e através delas as pessoas e os grupos sociais realizam uma complexa atividade de trocas simbólicas. Como afirma Morin, “a canção é o mais cotidiano dos objetos de consumo. Para este ou aquele indivíduo que tem seu rádio ligado, que ouve sua radiola, que coloca sua moeda no juke box de um bar, há um banho musical contínuo” (1973:150)

Segundo o professor, doutor em comunicação, Felipe Trotta, uma conseqüência do processo da definitiva consolidação da música enquanto produto, foi a representação material no suporte “disco”, agora facilmente comercializado ao lado de outras mercadorias igualmente palpáveis. A fixação desse suporte foi aos poucos determinando uma forma de criação musical adequada à este tipo de comercialização: uma melodia cantada, de preferência com um refrão, tonal, acompanhada por instrumentos “ao fundo” e de duração média de dois a três minutos. A noção de “música popular” é, portanto, concomitante e resultante da industrialização do fazer musical e de sua circulação massiva pela sociedade.”

Critérios e julgamentos para definição dos “rótulos”

Também para Trotta, os sistemas de classificação utilizados pelos vários grupos sociais para dividir e organizar seus bens e suas práticas culturais são resultado de um embate onde critérios e julgamentos estão continuamente em disputa. Classificar significa realizar uma escolha, elegendo esses critérios e nomeando as categorias. Ao mesmo tempo, as classificações fazem referência à totalidade do universo classificado. Conhecer aquilo que pertence propriamente a um indivíduo é ter diante de si a classificação ou a possibilidade de classificar o conjunto dos outros. A identidade e aquilo que a marca se definem pelo resíduo das diferenças (Foucault, 2002:200).

Trata-se de uma operação de inclusão e exclusão, com base em uma análise comparativa de graus de semelhanças e diferenças entre elementos comuns. A partir das semelhanças encontradas entre eles, as unidades do conjunto são agrupadas e nomeadas, passando a valer como uma categoria do sistema classificatório.

A classificação “música gaudéria” busca modificação




O modelo que se tem atualmente de música gauchesca (também intitulada “gaúcha” ou “gaudéria”), não foi atualizado no seu total entendimento por parte de quem a faz, músicos e compositores, e consequentemente pelo público. Tanto assim, que muitas vezes o público se surpreende quando conhece parte do que é produzido atualmente, como as diferentes interpretações e construções artísticas do gaúcho como ser reflexivo, instruído, até mesmo intelectualizado, com conhecimento musical e linguagem sonora elaborada, diferente do estereótipo criado nas décadas anteriores.

Músicas que empregam estruturas melódico-harmônicas elaboradas, construídas com uma poética rica em elementos gramaticais sofisticados e que ocorram em um contexto de experiência musical mais contemplativo do que participativo seriam, de maneira geral, dotadas de maior valor cultural do que práticas musicais fundadas em rituais coletivos, letras diretas e melodias simples. Mas essa não é uma regra fixa, há inúmeras variantes históricas, sociais, mercadológicas e simbólicas que a todo instante alteram o quadro hierárquico estabelecido.

Esta é a chave da discussão atual trazida pelos textos citados acima e pelas discussões nas redes sociais, através da busca de legitimação do que vem agora sendo feito, como busca de ser reconhecido. As estratégias dessa disputa passam, por um lado, pela autovalorização de seus elementos e, por outro, por sua longevidade, característica que invariavelmente implica na conquista de determinado status simbólico privilegiado. Por este motivo, determinadas práticas musicais se sedimentam e cristalizam procedimentos, estabelecendo um elo do presente com o passado. Algumas categorias de classificação do universo musical recorrem com freqüência à tradição como forma de aumentar seu prestígio e conquistar posições mais elevadas nas hierarquias das categorias musicais.

Para Michel Foucault, o ato de classificação guarda uma relação estreita com a linguagem, pois ambas se originam no terreno da representação “voltada ao tempo, à memória, à reflexão, à continuidade” (2002:220). Com isso, a permanência temporal de uma determinada categoria é reforçada pela utilização recorrente de seus elementos distintivos, produzindo ao mesmo tempo um repertório de “clássicos” e um santuário de personagens míticos do passado, sacralizados como referenciais para a continuidade da categoria. São os “monstros sagrados” do rock, as “divas” do jazz, as “velhas-guardas” do samba, os “mestres” da música erudita, os “ícones” do regionalismo gaúcho, enfim, mitos próprios para a construção de uma história e de uma “tradição” de cada categoria.

Classificações, ou "rótulos", também são identificações de emoções

Participar de uma experiência musical significa entrar em contato com esses códigos culturais, valores sociais e sentimentos compartilhados que fornecem elementos para a construção de identidades sociais e laços afetivos. Isso significa que a música é uma forma de comunicação e que sua circulação determina as condições sobre as quais essa comunicação irá ocorrer, influenciando diretamente a construção de sentidos das práticas musicais.

Consumir uma canção ou qualquer outro produto é participar de um “sistema simbólico” e associar-se a determinadas representações do produto consumido, ou seja, trata-se de um ato de identificação cultural. Através do consumo “a cultura expressa princípios, estilos de vida, ideais, categorias, identidades sociais e projetos coletivos” (Rocha, 2000:19). Ao participar de experiências musicais, entramos em contato com essas representações e as compartilhamos com outras pessoas, construindo afinidades e identidades.

O consumo é uma prática que só se torna possível sustentada por um sistema classificatório onde objetos, produtos, serviços são parte de um jogo de organização coletiva da visão de mundo na qual coisas e pessoas em rebatimento recíproco instauram a significação (Rocha, 2000:19).

 A “batida” é o que define o gênero musical

Segundo o etnomusicólogo Carlos Sandroni, o ritmo – e mais especificamente a “batida” – é o principal elemento de distinção que demarca as classificações dos gêneros musicais. Quando escutamos uma canção, a melodia, a letra ou o estilo do cantor permitem classificá-la num gênero dado. Mas antes mesmo que tudo isso chegue aos nossos ouvidos, tal classificação já terá sido feita graças à batida que, precedendo o canto, nos fez mergulhar no sentido da canção e a ela literalmente deu o tom (Sandroni, 2001:14).

Ritmo é a organização do tempo no som, aliás, uma forma temporal sintética, que resulta da arte de combinar as durações (o tempo capturado) segundo convenções determinadas. Enquanto maneiras de pensar a duração, o ritmo musical implica uma forma de inteligibilidade do mundo, capaz de levar o indivíduo a sentir, constituindo o tempo, como se constitui a consciência (Sodré, 1998:19).

Os ritmos são notavelmente a primeira definição sobre música que vemos nas manifestações da cultura gauchesca, tanto que, por exemplo, há certa aceitação ou não de determinados ritmos nos concursos de música inédita nativista. Desta forma, esta é a primeira “barreira” para a rotulação.

Rótulos são negociáveis?


Luiz Marenco e Thedy Correa, gêneros musicais distintos em fusão

A distinção de gêneros musicais está diretamente relacionada, como podemos concluir, com a construção das identidades musicais. Estas, como Bauman e inúmeros outros pesquisadores pós-modernos já citaram, não são estanques, e sim, construídas e negociáveis. Todos atuam sob rótulos, pois todos constroem a forma de agir sobre si. Nada é natural, dado ou genuíno.

Desgostar-se com o público que não conhece ou reconhece tal gênero musical é vão. Ou por acaso, todos nós conhecemos os demais gêneros que atuam e estão em plena produção atualmente?

Compreender o entendimento cultural alheio é o começo para desenvolver a linguagem suficiente capaz de dialogar com o próximo, pois, definitivamente, a música não é universal! É necessário que se construam pontes. E não digo pontes só através de mercado, isso seria impor “goela abaixo”. Refiro-me a pontes dialógicas, de linguagem sonoro-musical, artística, visual, etc.

No entanto, convém ressaltar que os elementos característicos que funcionam como demarcadores estéticos e eixos das classificações são resultado de uma contínua negociação, realizada por comunidades musicais em conflito e práticas musicais que continuamente se influenciam e se renovam. Podemos citar alguns exemplos destas hibridizações no meio da música regionalista do Rio Grande do Sul, como: Luiz Marenco e Thedy Correa (vocalista da banda de rock gaúcho Nenhum de Nós) que já cantaram diversas vezes juntos; a cantora Shana Muller que dividiu show com o rapper Nitro Di; o cantor e compositor Zelito que é parceiro musical do uruguaio Daniel Drexler; o cantor Pirisca Grecco que já teve participação do cantor Humberto Gessinger em seu show, e inúmeros outros exemplos que poderiam ser dados aqui. A própria cena musical rio grandense está repleta de exemplos de trocas e negociações, como poderíamos esperar do momento atual em que vivemos, onde as bricolagens e fusões são cada vez mais freqüentes.

Assim, até mesmo as posições hierárquicas dessas categorias oscilam de acordo com a conjuntura cultural e com o pensamento social de cada época, se constituindo como uma arena de disputas simbólicas e afirmações de legitimidade de práticas culturais de determinados grupos sociais em permanente e rico embate. Vale notar que a música é uma construção extremamente complexa, onde a colagem, a interseção e as trocas de elementos são práticas corriqueiras. Assim, a própria produção musical constantemente desafia os rótulos classificatórios mais estáticos, movendo fronteiras e criando sub-categorias infinitamente.

Influências, fusões e criatividade são aspectos do fazer musical que constantemente colocam em cheque a rigidez das classificações. No entanto, o esforço desprendido para encaixar práticas vivas em categorias classificatórias e encontrar nomeações adequadas a essas práticas/produtos demonstra a força que as classificações exercem na organização do universo musical disponibilizado pelo mercado.

Enfim, os rótulos fazem parte do sistema. É o preço que se paga por estar num mercado musical que promove essa circulação e organiza as ofertas, ou seja, os produtos. Também atualmente despontam outras formas de produção que buscam diferentes meios de difusão e não rotulação, como a chamada “música alternativa”, que por si só já é rotulada pelo mercado convencional, mas que objetiva novos meios de circulação, diferentes das gravadoras convencionais. Não aceitar rótulos engloba ter audácia de sair do sistema convencional. E aí? Quem se habilita?

5 comentários:

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  2. Faço a música que quero, o Show como posso. Não me apoio nos rótulos, fujo deles. Mas eles surgem naturalmente. Dizem do meu trabalho ( rótulos) : É Blues, é country, é folk, é retrô, é brega, é bom, é ruim, rsrsrsrsrsr

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  3. https://www.youtube.com/watch?v=OQQDZApQGZM Qual o rótulo disso?

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  4. Clarissa, é cabível a expressão música rio-grandense? Você pode responder no meu blog Abacate Turbinado. Endereço: www.abacateturbinado.blogspot.com.br

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